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Mateus Teixeira
MENSAGENS : 15

REPUTAÇÃO : 31

[TEXTO] Hipomene e Atalanta - Uma lição de Real diretamente da Grécia antiga

em 31/7/2017, 05:43
Reputação da mensagem: 100% (4 votos)
Os gregos já nos ensinam, há muito tempo, acerca do perigo de se envolver com mulheres orgulhosas e mimadas. O maior problema as envolvendo é o fato de que uma relação sadia, ou seja, na qual o casal consegue crescer em parceria, é impossível.
No mito de Hipomene e Atalanta, a jovem Atalanta é uma bela princesa, filha do rei de Ciros, que sempre foi a corredora mais veloz do reino. Ela era, porém, incentivada pelo pai a nunca casar-se, por ter sido profetizado a ele que o casamento seria sua ruína. Apesar disso, continuavam a surgir cada vez mais pretendentes, que a perseguiam ou pediam sua mão ao pai.
Ela era uma mulher muito bela e tinha um corpo bem cuidado por conta do hábito de correr mas, incentivada na vadiagem pelo próprio pai, passou a ter prazer em se esquivar dos homens, sendo fujona e sádica.
Costumava correr pelos campos e bosques, buscava sempre outras pessoas que quisessem apostar corrida com ela, mas logo se cansava, já que elas nunca eram boas o suficiente. Espelhava-se em Ártemis, deusa da caça, que tinha características masculinas de inclinação à guerra e tinha prazer em confundir e torturar os homens.
Um dia, cansada de ser perseguida por tantos homens que desejavam desposá-la, reclamou com o pai. Ele, atendendo ao pedido da filha de se ver livre disso, organizou uma corrida mortal: Todos os pretendentes deveriam competir com sua filha. Quem ganhasse, teria o direito de desposá-la; os demais seriam mortos.
Pois bem, apesar do risco, um número enorme de homens ainda assim se inscreveu para a corrida. No dia em questão, Atalanta observou seus oponentes e tomou a decisão de correr nua. Tirou o vestido que usava, passou um óleo por todo o corpo, se exibindo provocantemente e se preparando para a corrida. Isso fez com que ainda mais paspalhos se inscrevessem na corrida e fossem para a linha de largada, mas também atraiu a atenção do jovem Hipomene, que era juiz da prova. Ele decidiu que conquistaria aquela bela mulher para si.
Como era de se esperar, a grande maioria se atrapalhou logo na largada, tropeçando um por cima do outro. Ela tomou a dianteira e manteve a liderança da corrida durante todo o tempo, com poucos chegando a se aproximar dela durante todo o percurso. No fim, com um ato de sadismo ainda maior, sugeriu ao pai que ao invés de mortos os homens fossem capados. Porém, o pai recusou a “oferta” e ordenou que os homens fossem mortos na praça da cidade durante a noite. Atalanta já estava se vestindo quando Hipomene, ávido por conquistá-la, pulou da arquibancada onde se encontrava e se ajoelhou à frente dela, desafiando-na para uma corrida só entre os dois, tendo ele o mesmo destino dos demais homens caso perdesse.
Ela ficou surpresa, embora o tenha tratado com certa arrogância de qualquer forma, aceitando o desafio por puro ego. Naquela noite, os demais foram todos mortos, num verdadeiro espetáculo para o povo, deixando Hipomene preocupado, pois não possuía nenhum trunfo para ganhar a corrida. Isso o fez correr ao templo de Afrodite, deusa do amor, para implorar por ajuda; Afrodite, que já estava irritada com a forma que Atalanta desperdiçava seus dotes femininos e afastava os homens, deu ao jovem três maçãs douradas, explicando como ele devia utilizá-las durante a corrida para ganhar.
No dia marcado para o desafio, ela repetiu o mesmo que havia feito na primeira corrida: Se despiu, se exibiu e foi para a linha de largada. Ele preferiu correr vestido, pois guardou na roupa as maçãs que Afrodite havia lhe dado. Iniciada a corrida, por conta própria ele conseguiu ter força para acompanhá-la, mas nunca ultrapassá-la. Em determinado momento faltou o fôlego, e então começou a ficar para trás. Foi quando utilizou a primeira das três maçãs: A jogou a alguns metros de Atalanta, que irresistivelmente se abaixou para pegá-la assim que a viu, dando tempo para que ele a ultrapassasse. A vantagem, porém, não durou muito: Ela logo estava à frente mais uma vez, e ele teve que jogar a segunda maçã, da mesma forma. Teve o mesmo efeito.
Ele a havia ultrapassado mais uma vez, agora na reta final, mas ela logo estava à frente novamente e a pouquíssimos metros da linha de chegada. Ele então calculou bem e jogou a maçã muito perto da linha de chegada, correndo com toda a força em seguida. Ela, mais uma vez, se abaixou para pegar. Quando estava se erguendo, ele passou por ela como um furacão e ganhou a corrida. Ela teria que se casar.
Pois bem, ela não ficou muito triste, já que ele era bonito e inteligente. Casaram-se, houve festa no reino, mas o vício pela corrida nunca sumiu nem nele, nem nela. Então passaram a correr privadamente, e ela sempre o vencia. Hipomene estava tão embriagado pela paixão que sequer lembrou de agradecer uma única vez à deusa do amor, que começou a se irritar com a situação. Por conta disso, ela os enganou e fez com que fossem se exercitar e apostar corrida no templo de Cibele, a deusa mãe, representante da fertilidade da natureza, que se enraiveceu na hora com a afronta e transformou Hipomene e Atalanta em leão e leoa, respectivamente, prendendo-os à sua carroça para que estivessem eternamente condenados à puxá-la.

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Analiso esta história como uma verdadeira pedra preciosa do conhecimento de nossos ancestrais tratando-se da relação entre um homem e uma mulher. Listarei abaixo os ensinamentos morais que retiro dela:

- A obsessão do pai com a profecia que lhe deram o fez mimar a filha e transformá-la numa pessoa desprezível. Fazia todas as suas vontades, deixava que ela corresse onde quisesse e tomasse quem quisesse como desafiante, chegando ao cúmulo de permitir que tantos de seus súditos morressem numa corrida por capricho de Atalanta. Isso fez com que ela desenvolvesse uma personalidade egocêntrica e desprezasse os homens, já que só tinha como modelo um provedor que a mimava;
- Atalanta passou a desenvolver uma visão tortuosa das outras pessoas, já que se considerava melhor do que todas elas. Além disso, por ter o pai sempre dizendo para que não se casasse (vejam como o pai se parece cada vez mais com o Estado moderno), ela passa a desenvolver uma visão especialmente enviesada para com os homens;
- Sendo princesa e bela, vários matrixianos estavam à sua disposição, inflando seu ego constantemente e reforçando a ideia de que ela tem todos os homens à seu bel prazer. Eles a mimavam, perseguiam, tentavam consegui-la através de seu pai: Nenhum agiu como homem e a colocou em seu devido lugar;
- Na corrida, ela mostra sua verdadeira face maligna em duas ocasiões: No início, se exibindo desnecessariamente para sentir-se ainda mais poderosa e atrair ainda mais imbecis para adorá-la e no final, sugerindo ao pai algo ainda pior aos idiotas que a colocaram num altar para cultuá-la. A ação de Hipomene a surpreende um pouco, mas só um pouco; ele foi ousado e a surpreendeu, mas ainda assim se colocou numa posição de submissão, adorando-na;
- Especialmente interessante é a analogia com a deusa Afrodite, a qual Hipomene busca para pedir ajuda. Eu interpreto esta parte como uma conexão de um homem com o verdadeiro amor, ao invés da paixão efêmera e puramente carnal que guia a grande massa matrixiana. Por um lapso, Hipomene consegue se conectar a esta sabedoria espiritual, e recebe dela as três maçãs. As maçãs representam a vida, o amor, a imortalidade, a fecundida, a juventude, a sedução, a liberdade, a magia, a paz, o conhecimento e o desejo. Ou seja, o significado pleno de três maçãs douradas é justamente o esforço masculino profundo e real para a conquista de um amor. Durante a corrida, que representa a competição social, Hipomene consegue uma leve vantagem nas duas primeiras situações através do uso deste atributos, embora o tempo todo Atalanta ainda continuasse à sua frente. Por fim, ele consegue superá-la por pouco e ganha a corrida, ou seja, consegue conquistá-la;
- Eles se casam, mas a competição nunca acaba, e Hipomene perde toda vez. Por que? Porque se tornou fraco e apaixonado, esquecendo de se conectar com o amor, representado pela deusa Afrodite e “irritando-na”, ferindo as leis naturais do amor ao se tornar um perdedor e submisso que, além de estar competindo com a própria mulher ao invés de buscar construir algo com ela, se torna submisso aos seus caprichos assim como o pai;
- Por fim, a deusa do amor, irritada, os leva a profanarem o templo da deusa da fertilidade da natureza, Cibele. Ou seja, ferindo as leis do amor, o casal é levado a ferir algo ainda maior, que é a lei da própria natureza. Se um homem é submisso à sua esposa; se ele é fraco e não assume seu posto natural de liderança, ele não erra sozinho, ainda faz com que a esposa também erre, assumindo uma posição que não é sua e se tornando, por consequência, infeliz e transgressora de princípios muito acima das existências individuais. Dessa forma, homem e mulher se tornam predadores acorrentados, condenados a nunca experimentar a real liberdade que um relacionamento realista proporciona, condenados a estarem para sempre limitados, desperdiçando suas reais capacidades.


De forma geral, os mitos sempre contém uma sabedoria absurdamente rica e que é injustamente desvalorizada ou passada de modo imbecil que tira o interesse até mesmo das crianças por eles. Fica a reflexão sobre esta belíssima história e a lição de Real que ela nos dá.
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StarLord
Major
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REPUTAÇÃO : 1397

Re: [TEXTO] Hipomene e Atalanta - Uma lição de Real diretamente da Grécia antiga

em 31/7/2017, 14:07
Excelente analise meu caro! gostei muito de conhecer esta história, e também de sua reflexão!
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Mateus Teixeira
MENSAGENS : 15

REPUTAÇÃO : 31

Re: [TEXTO] Hipomene e Atalanta - Uma lição de Real diretamente da Grécia antiga

em 31/7/2017, 17:33
@StarLord escreveu:Excelente analise meu caro! gostei muito de conhecer esta história, e também de sua reflexão!

Que bom que gostou! Agradeço pelo elogio.
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Fernando_maluco
Soldado
MENSAGENS : 315

REPUTAÇÃO : 85

Re: [TEXTO] Hipomene e Atalanta - Uma lição de Real diretamente da Grécia antiga

em 1/8/2017, 15:38
Belo texto irmão! A mitologia grega é repleta de ensinamentos.

Eu já fiz muito esse papel de Hipomene. Que não sejamos mais assim!

Semperviri!
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Mateus Teixeira
MENSAGENS : 15

REPUTAÇÃO : 31

Re: [TEXTO] Hipomene e Atalanta - Uma lição de Real diretamente da Grécia antiga

em 1/8/2017, 17:23
@Fernando_maluco escreveu:Belo texto irmão! A mitologia grega é repleta de ensinamentos.

Eu já fiz muito esse papel de Hipomene. Que não sejamos mais assim!

Semperviri!
É errando que se aprende! Basta não desistirmos e continuarmos a buscar o caminho certo.

Semper viri!
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Ademar Gross
Neófito
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REPUTAÇÃO : 25

Re: [TEXTO] Hipomene e Atalanta - Uma lição de Real diretamente da Grécia antiga

em 2/8/2017, 15:35
Que texto foda!!!!!!

Que possamos sempre aprender mais com os ensinamentos do passado, visto que os de hoje estão cada vez mais auto destrutivos...
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Mateus Teixeira
MENSAGENS : 15

REPUTAÇÃO : 31

Re: [TEXTO] Hipomene e Atalanta - Uma lição de Real diretamente da Grécia antiga

em 5/8/2017, 21:57
Reputação da mensagem: 100% (1 votos)
@Ademar Gross escreveu:Que texto foda!!!!!!

Que possamos sempre aprender mais com os ensinamentos do passado, visto que os de hoje estão cada vez mais auto destrutivos...

Agradeço! Sim, precisamos recorrer cada vez mais à sabedoria ancestral. O que, na verdade, é o correto. Nunca deveríamos ter nos afastado dela!
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Re: [TEXTO] Hipomene e Atalanta - Uma lição de Real diretamente da Grécia antiga

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